sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Eu compro, tu compras, eles… nem sempre vendem

Primeira semana de aulas. Você acabou de comprar e organizar aquela lista enorme de materiais escolares e pensa que acabou, que agora é só pagar a mensalidade escolar … tsc tsc tsc… se você pensou isso é porque seu filho está indo para a escola pela primeira vez.

Não existe draga de dinheiro mais eficiente do que a escola. São cursos extras, é o inglês, são presentes de aniversário, são ingressos para o teatro, para o cinema, para a pipoca, é a van que vai levar para o teatro, para o cinema e até para comprar pipoca. São os tênis para educação física, as toalhas com nome, as garrafinhas para água que sempre são perdidas, o uniforme – com manga, sem manga, curto, comprido, de malha, de tactel. Fico pasma com a enorme variedade de modelos de um uniforme, quero dizer, era para ser uni . forme. De única forma. Minhas crianças têm quase mais variedade de modelos de um mesmo uniforme do que eu tenho em meu guarda roupa inteiro.

A primeira semana é sempre a mais complicada.Os professores que te entregaram aquela lista de materiais enorme, de repente, se lembram que esqueceram de alguma coisa, ou então resolvem ter alguma ideia inovadora e lá vai você correr atrás de satisfazer todas essas novas necessidades.

Na maior parte do tempo eu não gosto muito de fazer compras. Não sou aquele tipo de pessoa que curte sair para comprar. Eu compro o que preciso e quando preciso. Dependendo do montante da compra eu faço pesquisa de preços e tento economizar. Mas, na maioria das vezes, eu compro sempre nos mesmos lugares, por causa do atendimento.

Atender bem é uma habilidade cada vez mais rara no comércio nos dias de hoje, ao menos aqui onde moro. Então, quando encontro um lugar que preza pelo bom atendimento, viro cliente. Não me importo de pagar mais por um produto nesses lugares.

Assim, as lojas onde sou bem atendida me rendem mercadorias e, as lojas em que sou mal atendida me rendem histórias para contar. Como a da vez que uma vendedora disse que não tinha um produto na loja e indicou uma loja concorrente para comprar dando o nome de vendedor e tudo – o detalhe é que encontrei o produto na mesma loja a 2 metros de distância do lugar onde eu conversei com a vendedora; e tem também aqueles casos clássicos de atraso de mercadoria, o mais grave deles me levou a ir até a loja conversar com a gerência e explicar, pacientemente, que eu não tinha o dia todo para ficar na janela esperando o caminhão da loja chegar com a mercadoria, nem mesmo se o motorista do caminhão fosse o Gianechini; e teve a vendedora que me cumprimentou com a seguinte pergunta: “Você não odeia quando te prometem uma coisa e depois não fazem?” “O que foi que te prometeram?” “Disseram que o pagamento ia sair hoje e agora descobri que não vamos receber… “; e teve uma muito boa enquanto eu estava no Maranhão, e que um dia eu conto aqui, quando eu tive colocar uma roupa dentro da bolsa e ameaçar sair da loja para que alguém me notasse e eu fosse atendida, eu ri muito aquele dia.

A história desta semana é uma triste amostra da qualidade geral de atendimento no comércio. Uma das professoras de minhas filhas decidiu que precisava de lancheira e achei um modelo bem bonitinho, com um preço bem decente numa dessas lojas de variedades em que você mesmo se atende. Entrei, escolhi as lancheiras, e, já que estava lá escolhi mais algumas coisinhas necessárias em casa e fui pagar. No caixa, a atendente teve alguns problemas para chegar no total da compra mas, tudo bem, esse tipo de coisa só me irrita em determinados dias do mês ;).

“Como vai pagar?”

“Cartão.”

“Ah, eu não sei passar o cartão de crédito. Quer voltar depois?”

“Não, não quero voltar depois. Alguém tem que saber passar o cartão de crédito.”

“É que a mulher que sabe passar o cartão tá lá em cima. Já faz tempo. Acho que ela não vai demorar. Quer esperar?”

Eu realmente estava de muito bom humor naquele dia e perguntei:

“Não dá pra chamar ela? “

“Dá sim, vou anotar o valor”

Daí ela anota o valor na palma da mão e começa a olhar para os lados. Desiste, olha pra mim e diz:

“Escuta, vai lá atrás e pede para uma das moças ir lá em cima chamar ela.”

“Como é que é?”

“É que eu não sei passar o cartão, ela ainda não me ensinou.”

Como se eu soubesse quem é ela. Nesse ponto meu senso de humor tinha acabado. Eu já não queria mais a mercadoria, mas estava decidida a fazer dar certo. Existe um forte atrativo em uma causa perdida.

“Sei. E qual é a grande dificuldade de enfiar o cartão na máquina, escolher 1 – Crédito, e digitar o valor da compra?”

“Você sabe passar o cartão de crédito?”

Como eu não me atrevi a responder ela colocou a máquina na minha frente, esticou a mão onde estava anotado o valor da compra e disse: “O total é esse aí.”

Não aguentei. Caí na gargalhada. Coloquei a sacola no balcão, virei as costas e fui comprar as lancheiras em outro lugar.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

E agora, o que eu digo?

Há alguns dias minha filha de seis anos me confrontou com a seguinte questão: “Mãe, se o bandido fica doente, não precisa chamar o médico, né? Pode deixar morrer.”

Não consigo imaginar como foi que ela chegou a essa conclusão ou onde foi que ela escutou isso. Me incomoda pensar que ela pode ter escutado alguma coisa assim dentro de nossa própria casa e, me põe no meio de um dilema.

Afinal, onde fica a fronteira que demarca o que é ético, moral ou mesmo legal? Sim, porque até a lei está sujeita a interpretações.

Quem nos assegura o que é lícito, correto e aceitável para a vida?

Como eu posso afirmar com toda a certeza para minha filha que não, não se deve deixar ninguém morrer, conscientemente, nem na cadeia nem fora dela quando, por vezes, eu mesma penso isso?

Quantas vezes eu ouvi notícias sobre estupradores, pedófilos, assassinos de seus próprios filhos e pensei: por quê não somem? por quê não morrem? por quê não se afogam em seu próprio veneno e desaparecem da terra?

Ao final das contas, talvez minha questão nem seja essa. Acho que meu ponto é: será certo eu dizer para minha filha o que ela deve pensar? Devo apresentar a ela o meu ponto de vista sobre o andamento do mundo como se fosse a coisa certa a se fazer? Como posso explicar para uma criança a relatividade de todas as coisas?

Há algum tempo, via twitter, o Tico Santa Cruz, do grupo Detonautas (@TicostacruzRock) apresentou um dilema parecido entre ele e o filho. Segundo ele, o filho perguntou quem era Osama Bin Laden e ele ficou em dúvida se deveria dizer que Osama era um terrorista ou que era um revolucionário. Na época eu não entendi como isso poderia ser importante até minha filha me fazer esse questionamento. É certo qualificar? É certo dizer ao seu filho o que ele deve pensar?

Para quem estiver curioso, eu disse a minha filha que todas as pessoas têm que viver, mesmo os bandidos, porque enquanto estão vivos eles sempre podem se arrepender e mudar, e mesmo que não possam consertar o que estragaram, ainda podem se tornar pessoas melhores do que são agora.