terça-feira, 3 de maio de 2011

Almofada de Coração

Há muito tempo, quando meu marido e eu ainda namorávamos, em uma data comemorativa qualquer da qual não me lembro, ele me perguntou que presente eu gostaria de ganhar. Adoro surpresas e, ter que escolher meu próprio presente era uma coisa com a qual eu não queria me acostumar, entretanto, havia um presente que eu queria há algum tempo e que ninguém nunca tinha pensado em me dar: uma almofada de coração.

Pensando nisso hoje, acho que foi um pedido bem idiota. Típico de adolescente romântica, o que, definitivamente eu não era. Aliás, pensando melhor ainda, talvez fosse esse o motivo de nunca alguém ter me dado a tal almofada. Se eu fosse mais romântica, ou delicada, ou sensível, ou qualquer outro desses adjetivos atribuídos tipicamente ao sexo feminino, talvez algum homem de boa vontade tivesse me presenteado, voluntariamente, com uma almofada de coração.

O que posso dizer? Não sou.

E posso dizer mais ainda: Ainda bem que não o sou.

Gosto de mim. Gosto de ser decidida, e de correr atrás do que eu quero. Gosto de acordar de manhã, passar o batom, subir no salto alto e fingir que sou a mega-ultra-super mulher poderosa, que não se abate, que não espera o telefonema no dia seguinte, que pensa antes de falar e que não chora a toa.

Gosto de fingir que não estou interessada naquele sonho de consumo perfumado e falante mesmo quando meu coração quase sai da boca só porque ele diz oi e abre aquele sorriso que parece fazer o tempo parar.

Adoro trabalhar, e chegar no escritório fazendo toc-toc-toc com meus saltos altos. Saltos altos que dizem: tem uma mulher chegando.

Me sinto completamente realizada numa roda de amigos homens quando eles contam suas piadas, e dizem o que pensam sem se preocupar em como falar porque tem uma mulher no recinto. Gosto de não ser tratada com deferência por eles. Isso faz me sentir bem.

Resuminho da história: em nada combino com uma almofada de coração.

Depois de quase dez anos de casamento ainda tenho a almofada e confesso, ela não serve pra muita coisa além de despertar a cobiça de minhas filhas. É impressionante o magnetismo que uma almofada de coração, ou um bicho de pelúcia, ou um ramalhete de flores, exerce sobre uma mulher. Minha sogra conquistou a dela na sua sexta década de vida, do novo namorado. Minhas filhas quando não estão brigando pela minha, estão jogando iscas para fisgar as suas próprias e elas tem a assustadora idade de seis e quatro anos.

Conheço uma mulher que tem um daqueles ursos de pelúcia enormes que ganhou de presente de um namorado que ela já nem lembra mais o nome. Ela vende o fogão da cozinha mas não se livra do urso. A lembrança de amor do urso vai se transformando com o tempo e, quando ela está triste, ou feliz, ou se sentindo amada, ela vai lá e abraça o urso, ou bate no urso, ou senta no colo do urso como se estivesse fazendo tudo isso com o próprio marido.

Mulheres diferentes, personalidades diferentes, faixas etárias diferentes e todas buscando um lugar macio onde descansar a cabeça, um objeto quentinho que possam abraçar, uma lembrança de amor pra chamar de sua.

Sim, eu confesso, depois de quase uma década, a almofada de coração não me serve pra mais nada mas me ensinou uma coisa a respeito da essência feminina: toda mulher, em determinado momento, vai ter seu dia de olhar ao redor e enxergar o mundo todo como uma grande, fofa e absolutamente brega almofada de coração. Então, por que não abraça-la?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Eu compro, tu compras, eles… nem sempre vendem

Primeira semana de aulas. Você acabou de comprar e organizar aquela lista enorme de materiais escolares e pensa que acabou, que agora é só pagar a mensalidade escolar … tsc tsc tsc… se você pensou isso é porque seu filho está indo para a escola pela primeira vez.

Não existe draga de dinheiro mais eficiente do que a escola. São cursos extras, é o inglês, são presentes de aniversário, são ingressos para o teatro, para o cinema, para a pipoca, é a van que vai levar para o teatro, para o cinema e até para comprar pipoca. São os tênis para educação física, as toalhas com nome, as garrafinhas para água que sempre são perdidas, o uniforme – com manga, sem manga, curto, comprido, de malha, de tactel. Fico pasma com a enorme variedade de modelos de um uniforme, quero dizer, era para ser uni . forme. De única forma. Minhas crianças têm quase mais variedade de modelos de um mesmo uniforme do que eu tenho em meu guarda roupa inteiro.

A primeira semana é sempre a mais complicada.Os professores que te entregaram aquela lista de materiais enorme, de repente, se lembram que esqueceram de alguma coisa, ou então resolvem ter alguma ideia inovadora e lá vai você correr atrás de satisfazer todas essas novas necessidades.

Na maior parte do tempo eu não gosto muito de fazer compras. Não sou aquele tipo de pessoa que curte sair para comprar. Eu compro o que preciso e quando preciso. Dependendo do montante da compra eu faço pesquisa de preços e tento economizar. Mas, na maioria das vezes, eu compro sempre nos mesmos lugares, por causa do atendimento.

Atender bem é uma habilidade cada vez mais rara no comércio nos dias de hoje, ao menos aqui onde moro. Então, quando encontro um lugar que preza pelo bom atendimento, viro cliente. Não me importo de pagar mais por um produto nesses lugares.

Assim, as lojas onde sou bem atendida me rendem mercadorias e, as lojas em que sou mal atendida me rendem histórias para contar. Como a da vez que uma vendedora disse que não tinha um produto na loja e indicou uma loja concorrente para comprar dando o nome de vendedor e tudo – o detalhe é que encontrei o produto na mesma loja a 2 metros de distância do lugar onde eu conversei com a vendedora; e tem também aqueles casos clássicos de atraso de mercadoria, o mais grave deles me levou a ir até a loja conversar com a gerência e explicar, pacientemente, que eu não tinha o dia todo para ficar na janela esperando o caminhão da loja chegar com a mercadoria, nem mesmo se o motorista do caminhão fosse o Gianechini; e teve a vendedora que me cumprimentou com a seguinte pergunta: “Você não odeia quando te prometem uma coisa e depois não fazem?” “O que foi que te prometeram?” “Disseram que o pagamento ia sair hoje e agora descobri que não vamos receber… “; e teve uma muito boa enquanto eu estava no Maranhão, e que um dia eu conto aqui, quando eu tive colocar uma roupa dentro da bolsa e ameaçar sair da loja para que alguém me notasse e eu fosse atendida, eu ri muito aquele dia.

A história desta semana é uma triste amostra da qualidade geral de atendimento no comércio. Uma das professoras de minhas filhas decidiu que precisava de lancheira e achei um modelo bem bonitinho, com um preço bem decente numa dessas lojas de variedades em que você mesmo se atende. Entrei, escolhi as lancheiras, e, já que estava lá escolhi mais algumas coisinhas necessárias em casa e fui pagar. No caixa, a atendente teve alguns problemas para chegar no total da compra mas, tudo bem, esse tipo de coisa só me irrita em determinados dias do mês ;).

“Como vai pagar?”

“Cartão.”

“Ah, eu não sei passar o cartão de crédito. Quer voltar depois?”

“Não, não quero voltar depois. Alguém tem que saber passar o cartão de crédito.”

“É que a mulher que sabe passar o cartão tá lá em cima. Já faz tempo. Acho que ela não vai demorar. Quer esperar?”

Eu realmente estava de muito bom humor naquele dia e perguntei:

“Não dá pra chamar ela? “

“Dá sim, vou anotar o valor”

Daí ela anota o valor na palma da mão e começa a olhar para os lados. Desiste, olha pra mim e diz:

“Escuta, vai lá atrás e pede para uma das moças ir lá em cima chamar ela.”

“Como é que é?”

“É que eu não sei passar o cartão, ela ainda não me ensinou.”

Como se eu soubesse quem é ela. Nesse ponto meu senso de humor tinha acabado. Eu já não queria mais a mercadoria, mas estava decidida a fazer dar certo. Existe um forte atrativo em uma causa perdida.

“Sei. E qual é a grande dificuldade de enfiar o cartão na máquina, escolher 1 – Crédito, e digitar o valor da compra?”

“Você sabe passar o cartão de crédito?”

Como eu não me atrevi a responder ela colocou a máquina na minha frente, esticou a mão onde estava anotado o valor da compra e disse: “O total é esse aí.”

Não aguentei. Caí na gargalhada. Coloquei a sacola no balcão, virei as costas e fui comprar as lancheiras em outro lugar.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

E agora, o que eu digo?

Há alguns dias minha filha de seis anos me confrontou com a seguinte questão: “Mãe, se o bandido fica doente, não precisa chamar o médico, né? Pode deixar morrer.”

Não consigo imaginar como foi que ela chegou a essa conclusão ou onde foi que ela escutou isso. Me incomoda pensar que ela pode ter escutado alguma coisa assim dentro de nossa própria casa e, me põe no meio de um dilema.

Afinal, onde fica a fronteira que demarca o que é ético, moral ou mesmo legal? Sim, porque até a lei está sujeita a interpretações.

Quem nos assegura o que é lícito, correto e aceitável para a vida?

Como eu posso afirmar com toda a certeza para minha filha que não, não se deve deixar ninguém morrer, conscientemente, nem na cadeia nem fora dela quando, por vezes, eu mesma penso isso?

Quantas vezes eu ouvi notícias sobre estupradores, pedófilos, assassinos de seus próprios filhos e pensei: por quê não somem? por quê não morrem? por quê não se afogam em seu próprio veneno e desaparecem da terra?

Ao final das contas, talvez minha questão nem seja essa. Acho que meu ponto é: será certo eu dizer para minha filha o que ela deve pensar? Devo apresentar a ela o meu ponto de vista sobre o andamento do mundo como se fosse a coisa certa a se fazer? Como posso explicar para uma criança a relatividade de todas as coisas?

Há algum tempo, via twitter, o Tico Santa Cruz, do grupo Detonautas (@TicostacruzRock) apresentou um dilema parecido entre ele e o filho. Segundo ele, o filho perguntou quem era Osama Bin Laden e ele ficou em dúvida se deveria dizer que Osama era um terrorista ou que era um revolucionário. Na época eu não entendi como isso poderia ser importante até minha filha me fazer esse questionamento. É certo qualificar? É certo dizer ao seu filho o que ele deve pensar?

Para quem estiver curioso, eu disse a minha filha que todas as pessoas têm que viver, mesmo os bandidos, porque enquanto estão vivos eles sempre podem se arrepender e mudar, e mesmo que não possam consertar o que estragaram, ainda podem se tornar pessoas melhores do que são agora.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Curto meu curto

Hoje quero escrever sobre um dos maiores prazeres das mulheres: um corte de cabelo novo e totalmente diferente.

Bom… talvez não seja um dos maioooores prazeres de todas as mulheres mas, para mim, foi uma emoção comparável a coisas como comer chocolate em plena TPM, ou tirar aqueles sapatos de salto altíssimos depois de um dia inteiro de trabalho, ou ir ao banheiro quando se está muito muito muito apertada.

Então você se pergunta: o que tem demais um corte de cabelo??? E eu respondo: UAU…. (caro leitor deste blog, mentalize o rosto de uma pessoa sem palavras pra explicar).

Estou na minha terceira década de vida e tenho cabelos cacheados, encaracolados, crespos – escolha a sua categoria preferida – o mais correto é dizer que só posso pentea-los quando estão molhados, e que dependendo do tempo o frizz faz ele parecer uma tocha olímpica que não apaga nunca . Sempre gostei dos meus cabelos e nunca, nunca mesmo cogitei alisá-los, apesar de sentir uma pontadinha de ciúmes dos cabelos lisos da minha filha mais velha.

Não tinha pensado nisso antes porque eu não sabia o quanto ter cabelo liso é fácil. Se ele acordar armado você escova e prende num rabinho de cavalo bonito e deu; ele nunca tem frizz (eu odeio frizz); e o mais legal do cabelo liso: você pode fazer qualquer corte que aparece.

Eu, enquanto portadora orgulhosa de longas madeixas onduladas, nunca me dei ao luxo de escolher um corte de cabelo. Cabelo enrolado só tem dois cortes: curto ou comprido. Sempre optei pelo comprido porque gostava de exibir meus cabelos o que, com o passar do tempo, e a chegada das filhas, passou a ser uma grande besteira já que precisava deixar o cabelo preso durante a maior parte do tempo.

Então, semana passada, tive um cancelamento de agenda e fiquei sem ter o que fazer por duas horas e pensei: porque não??? Fui até a minha ‘cabeleireira-tira-só-as-pontinhas’ e pedi pra ela trabalhar de verdade.

“- O que você quer? No que está pensando?”, ela perguntou.

“- Só quero uma cara diferente, te vira…”

“- Tem certeza? E se você se arrepender? Seu cabelo é tão bonito!”

“- Ele vai crescer de novo, então usa essa tesoura com vontade.”

Bom. O que dizer? Ela usou.

Hoje sou uma mulher de cabelos curtos e … UAU….

Posso usar presilhas; inventar penteados; e, se o frizz ataca, puxo o cabelo pra trás com uma piranha pequena e não fico com aquela cara de dona de casa cansada, fica… UAU.

Enfim, meu cabelo sempre foi curto,  e só eu não sabia disso. Era a alma do meu cabelo (Anotação mental: papo filosófico para um futuro post. Os cabelos têm alma?)

A melhor definição da mudança foi dada pela minha filha mais velha: “Mãe, que legal! Agora você não precisa mais ficar com o cabelo preso só porque não lavou ele.”

Como é que as crianças conseguem deduzir as coisas assim tão facilmente?